A indústria da música tem salvação? Entrevista: Téo Ruiz (Músico)



Téo é especializado em Música Popular Brasileira pela Faculdade do Paraná (FAP), e como músico encontrou na internet uma ótima forma de divulgar seus trabalhos e projetos, que além de shows e CDs (que podem ser baixados online gratuitamente), conta com oficinas e workshops sobre música independente.

Ele escreveu em 2006 o livro Contra-Indústria (ed.Gramofone) em parceria com sua esposa, Estrela Leminski, e trouxe ao público anos de trabalho e pesquisa sobre o modelo industrial de produção musical no país. Na obra ele procura os motivos da atual ruína da indústria fonográfica e mostra como cena independente evoluiu até chegar em um nível em que os artistas auto-produzem a própria obra.

@ Por que vocês escolheram “Contra-indústria” para um título de livro sobre a Indústria Fonográfica no Brasil, é alguma provocação?
Na verdade, o título do livro propõe um novo paradigma para o músico independente, já que este termo não condiz mais com a realidade que esses artistas vivem. Eles são, na verdade, autoprodutores de seu trabalho, que participam de todas as etapas da produção musical, sendo realmente "não-especialistas" - o oposto a visão de trabalho que se estabeleceu após a Revolução Industrial. É uma alusão ao termo Contra-Cultura, mas não significa ser contra a indústria em si, é apenas uma maneira completamente diferente de lidar com a cadeia produtiva da música.

@Do que trata o livro?
O Contra-Indústria traz uma séria discussão sobre a música feita fora do grande cenário industrial. Traz aspectos sociológicos, históricos, novas tendências, alternativas de produção e distribuição, entre outros assuntos. Ele agrega diversos aspectos relacionados a maneira contra-industrial de produção propostas pelos artistas autoprodutores profissionais, que hoje em dia representam a maioria do que é produzido de música no Brasil. Como eles (os autoprodutores) estão atentos à dinâmica das transformações, utilizam a internet como uma aliada na divulgação e distribuição de seu trabalho, ao contrário do que faz as grandes gravadoras. Nada mais natural de que esses artistas saiam na frente neste aspecto, alcançando uma certa repercussão dentro do que fazem.

@Por que as gravadoras estão ruindo com a existência de uma maneira independente de se produzir e distribuir música (a internet)?
A crise atual do grande setor fonográfico tem, no fundo, menos relação com a existência de um cenário independente forte e mais com a própria insustentabilidade da maneira de como se criaram as relações nesse meio. Toda a mega estrutura criada para formar "sucessos", montar grupos e determinar o que as rádios vão tocar através de jabás um dia ia se tornar muito caro, até mesmo para essas multinacionais. Obviamente que a internet e o desenvolvimento tecnológico fortaleceram e muito o cenário independente e os autoprodutores podem sim ter sido o estopim dessa mudança de paradigma. Estamos vivendo uma importante transição, onde as grandes novidades não estão mais presentes exclusivamente nas grandes gravadoras. A esmagadora maioria, inclusive, se produz totalmente fora desse circuito.

@Na opinião e pesquisa de vocês, as gravadoras tem salvação?
Dentro de uma nova lógica de mercado, elas tendem a se adaptar e encontrar outras maneiras de sobreviver como já estão fazendo. Por exemplo, adquirindo sites de downloads pela internet (Napster e afins), além de lançar coletâneas apostando nos fonogramas que já possuem. Mas a realidade do mercado está cada vez mais favorecendo as iniciativas independentes, dos autoprodutores, pois esses sim realmente estão propondo novidades, que é o que move a mídia e o consumo de música. Acho que essa é a grande tendência.

@ E dá pra viver de música na Internet?
O mercado artístico, de maneira geral, enfrenta muitas barreiras e distorções no Brasil. Várias providências e movimentos estão sendo articulados em todas as áreas para mudar essa situação. Viver somente de música na Internet ainda é uma grande utopia, mas viver do trabalho artístico como um todo (shows, direitos autorais, diversos projetos) passe a ser um pouco mais viável, ainda que difícil. Como todo trabalho, exige investimentos na carreira.

@ Qual os pontos principais da estratégia que um artista independente deve adotar. Publicar música de graça na internet é um caminho?
Cada artista traça seu caminho e possui suas próprias formas de produção e atuação. Acredito que pro artista independente não tem como fugir de disponibilizar pelo menos algumas músicas na internet. É possível encontrar nossos dois discos inteiros na rede.

História da cena Independente


@Em que época as gravadoras ganharam força no Brasil?
Nos anos 50 a indústria fonográfica estava em grande expansão no Brasil. As multinacionais estavam investindo a todo vapor, e estavam convivendo com a massificação do rádio, que era uma novidade. Era muito custoso produzir música, por isso as iniciativas independentes eram vistas mesmo como marginais. Poucos não pensavam ou não tentavam entrar em uma grande gravadora, diferentemente de hoje. Mais próximo dos anos 70, na verdade, é que os primeiros trabalhos independentes vieram à tona, como Antonio Adolfo e seu disco chamado "Feito em Casa", já dizendo a que veio.

@Quando surgiu a cena independente no cenário musical brasileiro?
A cena independente no Brasil já é antiga, protagonizada por nomes como Itamar Assumpção e Grupo Rumo. Na verdade, eles fazem parte do primeiro grande movimento no Brasil de artistas independentes, a Lira Paulistana, do início dos anos 80.

@Os artistas da cena independente, para ganharem força a partir dos 70, reviram o modo de produção e as estratégias de distribuição da música que eles faziam ou o momento ‘dos grandes festivais de música’ favorecia o forte ressurgimento do cenário independente?
O momento dos grandes festivais foi um grande evento para a mídia. No meio dessa efervescência toda, começaram a surgir alguns nomes independentes como o Antonio Adolfo, e no começo dos anos 80 veio o pessoal da Lira Paulistana, que realmente não estava nem aí com a maneira de como a grande mídia funcionava, muito pelo contrário. Eles não se agregavam por estilo musical, mas sim por uma inquietação estética extrema, por um desejo de se fazer música apesar do mundo. E, na verdade, hoje existem muitas semelhanças, como por exemplo os autoprodutores que não possuem nada que os una, a não ser a maneira contra-industrial de produção.

@Nessa época, o salário dos artistas vinham dos shows ou da venda dos discos produzidos de forma independente?
Muitos dos artistas que "remavam contra a maré", digamos assim, tinham outros empregos paralelos, como professores universitários por exemplo. E ainda tem, na verdade. Essa é uma questão muito ampla, não existe um padrão. O que existe é um mercado que privilegia a grande indústria, sufocando a imensa produção musical que existe fora dela, o que é uma grande distorção. Mas esse "grande esquema" está em crise, e várias mudanças estão por vir.

Leis de incentivo a cultura

@No livro de vocês há um estudo das Leis de incentivo e uma espécie de críticas a elas, quais seriam essas leis e que críticas são essas?O livro traz uma abordagem geral do principal mecanismo de incentivo à cultura no Brasil que existe desde o início dos anos 90: a renúncia fiscal. Apontamos as leis de incentivo à cultura baseadas nos tributos federais, estaduais e municipais como uma importante ferramenta que deve sim ser utilizada pelos artistas independentes. Diversas manifestações extremamente importantes foram viabilizadas por esse mecanismo. Porém, existem distorções a serem aperfeiçoadas nesses mecanismos. Uma das questões que citamos é o fato do próprio estado se utilizar dessas leis para realizarem seus projetos, em vez de de contarem com recursos de seu próprio orçamento. Além disso, a área de marketing das empresas acaba de fato decidindo o que realmente vai acontecer ou não na cultura. No fundo, esse tipo de mecanimso não se constitui em uma política pública para a cultura por si só, é um dos mecanismos, e acho que esse é o pano de fundo das críticas que levantamos sobre as leis de incentivo.

@Qual a opinião de vocês sobre as mudanças que estão ocorrendo na Lei Rouranet?
Acho que é um momento de mudanças importantes. Eu escrevi um artigo sobre a proposta do governo que inclusive foi publicada no blog oficial do ministério e participei ativamente do debate aqui em Curitiba com membros do governo. Considero que, no geral, a proposta é muito boa. Diversos aspectos que criticávamos no livro devem ser resolvidos com essa nova proposta. A grande questão e preocupação é saber se essas propostas terão realmente seu efeito prático desejado. O ponto central das minhas observações é saber se esse discurso é mesmo a intenção do governo ou se é mais uma jogada de campanha. O que acho que temos que fazer é estar atentos e cobrar as devidas medidas do governo para que as leis realemente atendam as necessidades da classe artística e, o mais difícil, que sejam efetivamente aplicadas.

Para ler a entrevista sem edição, acesse aqui.

Para adquirir um exemplar do livro Contra-Cultura ou saber um pouquinho mais do trabalho de Téo é só
visitar o site: www.musicaderuiz.art.br / www.myspace.com/musicaderuiz

Comments :

4 comentários to “A indústria da música tem salvação? Entrevista: Téo Ruiz (Músico)”
Nexo Indefinido. disse...
on 

E a Indústria, tem salvação?
Dentro de uma nova lógica de mercado, elas tendem a se adaptar e encontrar outras maneiras de sobreviver como já estão fazendo. Por exemplo, adquirindo sites de downloads pela internet (Napster e afins), além de lançar coletâneas apostando nos fonogramas que já possuem.

Mas a realidade do mercado está cada vez mais favorecendo as iniciativas independentes, dos autoprodutores, pois esses sim realmente estão propondo novidades, que é o que move a mídia e o consumo de música. Acho que essa é a grande tendência.
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é agora vai começar a ficar tudo assim , e isso vai crescer cada dia mais .

abraços ;D

se puder http://nexonde.blogspot.com/

Daniel disse...
on 

Não acho que esteja em crise. Acho que é outro tempo. Hoje não tem espaço mais para venda de cd como antigamente. Hj o conteúdo é praticamente público e o privado são os shows. É dificil aceitar e entender isso, mas o mundo de hoje tem uma comcepção muito diferente de público e privado.

Inez disse...
on 

Com o aparecimento da internet e com a pirataria é preciso que os músicos e as gravadoras encontrem novas fórmulas para atingir o público.

melk jus disse...
on 

cara, isso é muito complexo, nao podemos afirmar muita coisa em relaçao à industris da musica, quando pensamos isoladamente temos uma visao distorcida, entao acrdito que a ind. nao morrerá apenas se adequará a nova realidade, como já vem acontecendo...
melk...visita-me

http://www.hellboynews.blogspot.com/

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